quarta-feira, 18 de março de 2009

Chega de revolta

Não vou mais te combater com revolta.
Vou fazer tua escolta e revidar com ternura
toda essa amargura que te faz brigar comigo,
consigo e com o mundo.
Pois meu amor é profundo
e quer te ajudar.

Se queremos mudar alguém ou um fato,
sejamos sensatos e não usemos o grito.
Repito: não usemos o grito.

Usemos o ato e o exemplo,
isentos de rancor e de ódio,
livres da vontade de vingança,
mas sim, repletos de amor.
Como este poema,
que agora te dou.

terça-feira, 10 de março de 2009

Muitos carnavais

Não quero só teu corpo
e alegorias.
Nem muito menos as fantasias,
purpurinas e maquiagem.
Quero todo o teu enredo,
e a letra do teu samba.
Também o batuque
do teu coração.
Quero teu ritmo,
e tua comissão de frente.
Quero tuas alas,
tuas falas e tua mente.
Quero ser teu mestre,
sala,
cozinha
quarto e banheiro.
Quero ser tua porta-bandeira.
Quero ser tua rainha
de bateria.
Quero toda tua harmonia
nota dez.
Mas não quero ficar na plateia,
nem no camarote ou na cadeira.
Também não quero só desfilar.
Vim para ficar
o ano todo
e por muitos carnavais.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Natural

A noite cai.
O sol se vai.
A chuva molha
e a folha chora
o orvalho da noite.

As flores morrem
e o vento corre,
varrendo a terra
e o caminho.

Eu sozinho
ainda choro,
mas não imploro
por sua volta.
Eu sei que o fim
é natural.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sintomas

Doutor, tô doente
preciso melhorar.
A dor é insistente
e não tem hora pra acabar.
Vou relatar meus sintomas
e ouvir sua prescrição.
Por favor, tome nota
e preste muita atenção:
brilho nos olhos,
água na boca,
pressa no peito,
garganta rouca.
Queima a pele,
coçam as mãos,
bate ligeiro
o coração.
Sinto arrepio,
frio na barriga,
sua meu corpo,
arde a ferida.
Meus pés ficam gelados
e também saltitantes.
Tenho risos forçados
e manias irritantes.
Tenho raiva ainda
e por vezes alegria,
de repente vem uma tonteira
e me dá aquela azia.
A palavra fica presa
e queima sob a língua.
Noutras vezes ela dispara
e me sinto à míngua.
Tenho borboletas na barriga
e soluços constantes.
Me esqueço do passado.
Nunca senti isso antes!
E então, doutor amigo,
você pode me curar,
acho que estou amando,
que remédio devo tomar?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cena do crime

Ainda sinto teus dedos deslizando na minha pele
e tua voz ecoando em meus ouvidos.
Nas minhas roupas, o teu cheiro,
na minha boca, o teu mel.

Tuas palavras se repetem na minha mente
e no i-Pod ainda tocam as músicas que você gravou pra mim.
Os copos na pia continuam rubros, com os restos do nosso vinho,
e o cheiro da pizza ainda invade minhas narinas.

A cama está desfeita
e a banheira continua molhada,
e eu tenho a nítida impressão
de que você vai me abraçar a qualquer momento.

Mas estou totalmente enganada.
Você já se foi há muito tempo.
E eu ainda não consegui desfazer a cena do crime.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O poeta não é triste

O poeta às vezes mente,
sentindo as dores como se fossem suas.
Ele mergulha no abismo por prazer
e deixa sua alma completamente nua.
O poeta não é necessariamente triste,
só insiste em sofrer para escrever
e, então, se libertar,
transformando sua lágrima
na palavra a rimar.
Mas se ele é deveras sensível,
exagerado,
- e até mesmo um coitado para os leigos -
também é extremamente meigo,
e, por vezes, demasiadamente otimista.
É do tipo que acredita em amor à primeira vista,
que saúda o sol a despertar o dia.
Então, ao ler os meus poemas,
não me olhe com cara de pena,
não me rotule de garota-problema.
Posso até ser mais triste que você em alguns dias,
mas enquanto você foge e nega sua dor,
cultivo meus sentimentos com ardor
e transformo tudo em poesia.
Quer maior alegria?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Gotas de orvalho

Seus dedos tocaram o meu corpo
como gotas de orvalho.
Meu poros se dilataram,
como quem aspira o perfume que emana de ti.

Seus sussuros em meu ouvido,
levaram minha nuca ao arrepio,
cheguei a sentir frio,
tão forte era o calor que extravasava de tua pele.

E de repente, num instante,
você já não estava mais ali.

Foi quando me dei conta: tudo não passou de uma ilusão.